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Eu nasci perto do rio, do meu banco da escola
ouvia o murmurar das suas águas, nele aprendi a nadar, tendo
como “prancha” de saltar o “seixo”, ali mesmo em
frente do “forte”. Foi ali que, como tantos de vós, dei
as minhas primeiras braçadas. O “seixo” da minha infância
que durante séculos resistiu à fúria das águas caudalosas,
para no verão estar disponível e pronto, a ajudar sucessivas
gerações a aprender a nadar, não resistiu à força das
maquinas das areias. Sinto saudades do seixo da minha infância,
da nossa infância.
Foi, desde esses longínquos anos da década
de 30, que me ficou um certo fascínio pelo rio. Os rios
atraem-me, encantam-me, e é por isso que ainda hoje, eu passo
horas intermináveis junto das suas margens, admirando o seu
curso, o seu caminho, que ele próprio abriu ao longo de
milhares de anos, e meditando na lição que o rio nos dá,
apesar de desrespeitado e maltratado por aqueles a quem tudo dá,
sem nada exigir em troca. E é neste deambular, pelas suas
margens, de cana na mão e cesto as costas e em contacto
permanente com a natureza, tentando pescar o peixe que não
existe, que me leva por vezes a meditar nas palavras do poeta,
quando escreveu.
- Eu
quedei-me a meditar além do encanto
- Nos
benefícios que nos traz o nosso rio.
- E
pensei:
- Se
ele já regou as terras a montante,
- Parece
que para os lados da jusante
- Devia
já ir vazio.
- Mas
não!
- A
pouca água que ele tinha a deu:
- Dele
tudo o que tem vida já bebeu,
- A
horta, o homem, a ovelha e o cão.
- E,
apesar de tudo, o seu caudal
- É
maior que na fase inicial!
- E
continuei pensando:
- Como
o rio está fazendo bem à gente
- A
natureza lhe vai dando um afluente
- De
quando em quando. É assim
- Que
conforme dá, vai recebendo
- E
a terra convertendo em jardim!
- E
prossegui na tal meditação.
- Procurando
aprofundar esta lição:
- A
natureza dá-nos a imagem
- Da
vontade de deus, o Criador.
- Se
o homem procedesse como o rio.
- Deixaria
de haver este vazio
- Que
nos priva do bem e do amor.
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- Tal
como S. Francisco de Assis diria apetece-me chamar ao rio,
meu irmão.
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- A. Duarte Santos
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