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TESTEMUNHOS
 

Memória do Iraque 

Mário Mendes Martinho é dos residentes de Dornelas do Zêzere a quem a nossa Associação presta serviço. È conhecido pelo seu notável sentido de humor no relacionamento com as pessoas e pelo atrevimento com as mulheres. Já esteve nos quatro cantos do mundo, desde o Canadá até Africa e neste depoimento recorda-nos a sua passagem pelo Iraque num período em que, tal como agora, o povo iraquiano vivia atormentado pela guerra. 

            - Em que altura esteve no Iraque? 

            Fui para o Iraque em Julho de 1982, aceitando o convite de um empreiteiro conhecido de Casegas que pretendia alguém experiente na construção civil para integrar uma equipa de trabalho no Iraque. Estive lá sensivelmente um ano, numa época em que o país estava em guerra com o seu vizinho Irão. Naquela altura, era essencialmente mão-de-obra estrangeira que era recrutada para as obras, pois os homens iraquianos eram obrigados a integrar as forças militares envolvidas na guerra.           

- Como era o seu trabalho? 

            Inicialmente, durante 4 meses, trabalhei em Bagdade na construção duma estação de tratamento das águas salgadas deste rio. Trabalhávamos diariamente das seis da manhã às dez da noite, excepto à sexta-feira em que as pessoas trabalhavam somente de manhã, indo rezar e fazer compras à tarde. Vestíamos sempre uma camisola com a identificação da empresa onde trabalhávamos, para evitar maior ser confundidos com algum guerrilheiro iraniano. O clima era muito quente, ultrapassando os 40º na maior parte dos dias. Raramente chovia e por vezes ocorriam tempestades de areia semelhantes a um nevoeiro denso que embatia violentamente na face das pessoas e perturbava a visão. 

            - Conte-nos algumas características da sociedade iraquiana da época? 

            Era um país onde a maioria da população era pobre e somente a classe militar evidenciava sinais de riqueza. Circulavam nas ruas, muitos carros já velhos, pois a gasolina era barata. A sexta-feira era respeitada como dia santo e muitos muçulmanos iam rezar nas mesquitas, onde não existiam estátuas de santos como nas nossas igrejas. Os Iraquianos bebiam muito chá e por vezes a sua refeição consistia em bolos de arroz feitos em casa e depois molhados no leite. Quando matavam um borrego ou um cabrito, a refeição era composta exclusivamente por esta carne, não sendo acompanhada por mais nenhuma comida. Devido ao clima de guerra, os iraquianos viviam em permanente desconfiança dos estrangeiros, temendo que fossem aliados do país inimigo. Eu andava pelas ruas com muito cuidado e se me perguntassem quem era, respondia-lhes ser português e amigo, falando em inglês na esperança de perceberem as minhas palavras. Nas ruas da cidade, quem atropelasse alguém e tentasse fugir, era imediatamente perseguido e rodeado pelas pessoas que lhe batiam indiscriminadamente, podendo até causar-lhe a morte.           

- Qual era a opinião das pessoas em relação ao regime Saddam Hussein? 

As pessoas estavam conscientes de viver numa ditadura pelo que ninguém se manifestava contra o governo, receando ser castigadas por isso. Saddam oferecia prémios às mulheres que concebessem rapazes, para mais tarde serem aproveitados para combater na guerra. A televisão apresentava constantemente imagens de militares e de material de guerra ou as bonitas paisagens existentes no país e não noticiava os acontecimentos ocorridos no resto do mundo. Isto era uma forma do regime cativar e mentalizar os jovens para a necessidade da guerra. 

- Recorde-nos algum episódio curioso que lhe tenha acontecido? 

Quando parti um braço no trabalho, lembro-me de ter ido a um hospital que tinha as paredes sujas de fezes. O médico que me atendeu tinha-se formado em Cuba, pelo que conversámos em espanhol. Um facto curioso era haver no seu consultório, num candeeiro do tecto, um ninho de andorinha. Outra história hilariante passou-se quando viajava de carro, acompanhado por um colega de trabalho português. Eu ia a conduzir e o meu colega desatou a fazer gestos obscenos com as mãos para as pessoas por quem passávamos ou que iam dentro dos automóveis. De repente, um carro atravessou-se à frente do nosso e saiu de lá de lá um homem (que não terá gostado da brincadeira) empunhando uma arma. Dirigiu-se ao meu companheiro, encostou-lhe a arma ao pescoço e ameaçou-o, gesticulando algumas palavras iraquianas. Eu fiquei apavorado com a situação e prontifiquei-me a pedir-lhe desculpa, dizendo-lhe em inglês que o meu amigo era maluco, até que o convenci a desistir de o magoar. No resto da viagem, o meu colega nortenho permaneceu imóvel e calado, relevando ter apanhado um grande susto e desde então nunca mais voltou a repetir as suas infâmias. 

Entrevista realizada por:
António Antunes

 

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